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Onde está a verdadeira humildade?


Londres 23/04/2020


Passamos a vida procurando a felicidade. Almejamos o amor entre os quais convivemos. Desejamos a paz interior. Aspiramos o sucesso nas realizações pessoais e profissionais. Vivemos uma vida em uma busca do que ainda não conquistamos. Alimentando-nos daquilo que nos impulsiona às novas aquisições que dão sentido aos afazeres cotidianos – do acordar em cada manhã do sonho dormido para adentrar o sonho vivido – que realidade fantástica! Estudamos, nos aprimoramos, mostramos ao mundo o que somos capazes, o que viemos fazer nessa Terra. Nos fazemos ideais! Brilhantes! Tão espetaculares que viramos o espetáculo de nós mesmos. Nos falamos infalíveis.


No ideal, tudo parece um sonho – a aclamada fantasia capitalista-moderno-tecnológica que facilita a vida de todos e nos ilude de tamanha felicidade.


Na produção deste sentimento sublime, no entanto, nos deparamos com frustrações, decepções, insatisfações, angústias, com o medo que aprisiona, com o inevitável erro e com o mais profundo vazio existencial, que se oculta por detrás das máscaras. Elementos desagradáveis, que devem ser camuflados, excluídos de um projeto tão incrível na construção desta suprema felicidade, mas que insistem em surgir e se apresentar como impreenchíveis, inevitáveis, insolúveis – incongruentes com a proposta inicial do sonho vivido. Como pode isso?


Falamos aqui de sentimentos que, pela intensidade e inconsciência das suas raízes, levam-nos aos estados depressivos, aos transtornos de ansiedade, às neuroses e aos complexos de culpa e inferioridade. Múltiplos sentimentos que foram paradoxalmente alimentados na busca deste êxito.


Mas o que há de distorcido nesta busca, então?


O simples fato dela estar baseada no nível EGO. Este nosso ideal de êxito-ego que faz com que as pequenas escolhas nossas de cada dia privilegiem apenas uma imagem restrita e ilusória de si mesmo, que busca sempre o reconhecimento no outro, o aplauso exterior. Nesta restrição, tudo que não pertence a essa pseudo imagem-escultura de aparências é excluído e abre campo para os mecanismos escapistas das fugas psicológicas de naturezas e desdobramentos múltiplos. Eu não quero ver porque não vai pertencer ao status quo; eu não posso lidar porque desconheço e temo; eu nego para não quebrar a perfeita imagem idealizada que fiz de mim mesmo. Eu fujo. Eu julgo e falo compulsivamente para afastar de mim qualquer sombra que me atormente. Eu crio tiques nervosos, ocupações e afazeres mil para desviar minha tensão eminente de me perceber.


Poderíamos dizer que estes são alguns dos mecanismos do escape egoico que mantém os propósitos superiores do EU abafados, na vivência daquilo que não se é, pelo medo de não parecer o que esperam de mim. Ou o que imagino que esperam de mim para ser aceito no mundo social. Essa autoimagem mentirosa, cultivada e desprovida de afeto e profundidade, que formulamos com tanto apego, é tal qual uma superfície espelhada que reflete, não só o rosto de um outro alguém, mas a fantasia que este outro quer ver ao se admirar nesta superfície, para também não se ver. Um jogo de ilusões.


Outro importante ponto aqui a ser observado é a vivência na busca incessante do prazer e do reconhecimento externo, mas desintegrado do todo que, ao invés de promover a autorrealização, caracteriza-se como a geradora dos tormentos e tristezas, sofrimentos e conflitos, angústias e medos – sobretudo o de ver a si mesmo. Ao permanecer no nível primário consciencial do EGO, a faixa EU que só percebe 5% da situações experienciadas na vida de vigília, esta vivência caracteriza-se extremamente desgastante, pois o consumo de energia para se manter na aparência do que não se é acaba sendo exaustiva.

Nos perguntamos, então: como equacionar a realidade da busca da felicidade com a autorrealização? Isto é algo que parece tão inadequado quanto inatingível na sociedade moderna. Aliás, um conceito pra lá de egoico esse do período moderno, afinal de contas, ele é todo baseado nas formas de produção de realidade tão restritivas e fixas quanto a consciência dos 5% de percepção. Uma sociedade de produção de consumo, baseada no materialismo, que fez do desejo pelo descartável a forma mais sustentável de manter aquilo que é insustentável. E nessa dicotomia criamos uma angustiosa doença. Eu quero ter o que não se tem, ignorando que os únicos valores permanentes são as construções do EU superior e as aspirações supremas do ser, onde reside a real felicidade. Dessa forma, vivemos descartando sentimentos tais quais garrafas pet e sacolas de plástico, tão sem valor quanto o meu amor, já que nada neste mundo é feito para permanecer, para durar, não é mesmo? Confundimos e nos identificamos com esse estado descartável e perecível de tudo, como na duração de uma respiração, que desfaz um afeto com indiferença. Vivemos uma vida de ilusão que compramos ou barganhamos na certeza de garantir a permanência e eternização de nossos atos egoicos. Em um mundo de superfícies fugazes, nada se aprofunda.


O momento e o impacto inédito da circunstância viral no mundo atual (que não é o viral da vídeo da moda), contudo, nos obriga a olhar para dentro. Nos obriga a sair da horizontalidade medíocre da vida moderna – focada no finitude materialista – e entrarmos na verticalidade profunda do ser – conectada com o ser espiritual, imortal. E mais, colocar em cheque o valor de tudo o que aí está.


O isolamento é um momento para se ver em profundidade. Para se ver a verdade em profundidade. Falamos aqui da sua verdade. Da verdade de cada um. De ser honesto consigo mesmo. Sem todo esse enfeite, toda essa decoração, sem toda a distração, sem todo esse confeito, sem todos os anestesiamentos e entorpecimentos culturais e sociais que inventamos ao nosso redor, exatamente para não ter tempo de olhar para si mesmo. Tudo que me distrai, tudo que me desvia, tudo que me entretém, tudo que me detém, tudo que interessa ao meu sucesso, mas muitas vezes não me convém, visto que os desastrosos resultados destas escolhas estamos aí a colher. Energias planetárias em desgaste, desigualdade social profunda e desumana, taxas de suicídio cada vez mais alarmantes e doenças pandêmicas que expõe a dualidade do pseudo corpo invencível em uma alma fragilizada. A tecnologia moderna resolveu o conforto, mas foi incapaz de acalentar o coração e de inspirar a alma ao seu grande salto.


A grande conquista para esse momento, portanto, é do ser em si e consigo mesmo. Mas para que essa conquista do se ver se efetue, para se ver a verdade, é preciso estar lucidamente em si, só – em solitude – este é o convite. Para se ver é preciso corajosamente estar só. E como temos medo desse encontro, não é verdade? É preciso muita humildade para fazê-lo. É preciso descer do trono rainha, descer do teu pedestal… Pois somente aquele que aprendeu a fazer de si um canal transcendente genuíno, de serviço desinteressado, pode atualizar-se, perceber-se e aceitar-se no lugar onde está e saber-se capaz de ser feliz e transmutar.


Como diria a poeta, lá mesmo esqueci que o destino sempre me quis só, num deserto, sem saudades, sem remorso, só… sem amarras, barco embriagado ao mar… Para poder largar daquele leão-ego que sempre cavalguei.


Será que o vírus vai nos facilitar a cura das sandices do egoísmo que tanto insistimos em idolatrar? Idolatrar dentro, idolatrar fora. Idolálá? Idolanaro? …Será que vamos nos curar dessa doença do fanatismo, das cegueiras, das exibições nos modernos confessionários digitais, onde nos deleitamos em expor as carências em busca de likes, de loves e de dindin e somos controlados pelo invisível big brother? Será que será desta vez que curaremos esse amor próprio que quer a todo custo se auto exaltar, se autopromover em busca de reconhecimento e do aplauso pra estancar a carência, o vazio e a desconecção com o auto amor?


Pensando aqui, agora…


Não será uma felicidade a calma, em meio as tempestades da vida?


Namaste!


Flavio Graff

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