top of page

Minnesota não é acaso: o retorno kármico das fundações não resolvidas dos Estados Unidos

Netuno–Saturno em 0° de Áries e a ferida fundacional que agora emerge


Dakota Fall, ilustração de Jamie Hewlett, mostra um indígena da Guerra Dakota de 1862 com folhas caindo e a cabeça baixa do cavalo, símbolos da derrota iminente
Dakota Fall, ilustração de Jamie Hewlett, mostra um indígena da Guerra Dakota de 1862 com folhas caindo e a cabeça baixa do cavalo, símbolos da derrota iminente

Há momentos históricos em que o tempo deixa de avançar em linha reta e passa a dobrar-se sobre si mesmo. Não como repetição mecânica, mas como retorno consciente. O passado reaparece não para ser reencenado, mas para ser finalmente encarado. Esses momentos surgem quando aquilo que foi silenciado, invisibilizado ou violentamente reprimido já não consegue sustentar o edifício que se ergueu sobre ele.


Do ponto de vista astrológico, o ingresso definitivo de Netuno no signo de Áries em 26 de janeiro de 2026 – seguido pela conjunção exata com Saturno em 20 de fevereiro de 2026, no grau zero do zodíaco – marca um desses pontos-limite.


Essa conjunção promete. Não se trata de um trânsito qualquer, mas de um evento histórico sem precedentes: nunca antes, em toda a trajetória documentada da humanidade, Saturno e Netuno se encontraram no início absoluto do ciclo zodiacal. No ponto onde tudo começa. Onde identidade, impulso e direção são inaugurados.


O que se sabe, no entanto, é que as conjunções Saturno-Netuno desmoronam estruturas, como foi o caso do muro de Berlim, em 1989.


Analisando esse evento histórico inédito à luz do mapa astrológico dos Estados Unidos, o simbolismo deixa de ser abstrato e se torna visceral – sobretudo porque ele ativa diretamente o IC do país, o Fundo do Céu. Na astrologia mundial, o IC representa a base invisível de uma nação: suas raízes históricas, seu chão simbólico, aquilo sobre o qual tudo foi construído, mas que raramente é questionado. Tocar o IC não é tocar a superfície dos acontecimentos; é tocar um ângulo fundamental.


E é aqui que surge a pergunta incontornável: por que, justamente agora, esse ponto basal do mapa dos Estados Unidos volta a ser ativado.

E por que isso se manifesta de forma tão violenta em Minnesota?


Minnesota não é um lugar qualquer no imaginário americano. E os acontecimentos recentes ali - mortes em ações estatais (ICE), disputas abertas entre narrativas oficiais e imagens registradas, sensação de colapso moral e institucional – não surgem no vazio. Eles emergem exatamente quando Netuno retorna ao mesmo grau ariano que ativava o IC dos EUA em 1862, durante a Guerra Dakota: o momento em que o Estado norte-americano rompeu tratados, promoveu execuções em massa e expulsou povos originários de suas terras, consolidando sua soberania territorial por meio da violência institucionalizada.


Não se trata de coincidência histórica. Trata-se de ressonância estrutural. O mesmo ponto do mapa. A mesma base sendo tocada. A mesma ferida exigindo revisão.


Mní Sóta: as águas do céu e a memória da terra


O próprio nome do estado vem da língua Dakota: Mní Sóta, “sky-tinted water” – águas tingidas pelo céu. Lagos, rios, reflexos, a permeabilidade entre terra e firmamento. Uma imagem profundamente neptuniana, que revela a forma como aqueles povos se relacionavam com o mundo: não por dominação, mas por correspondência; não por posse, mas por pertencimento espiritual. Essa poética da terra foi violentamente esmagada por um projeto colonial que jamais reparou o massacre, a expulsão e a invisibilização desses povos. A poesia do nome permanece. A ferida do território também.


Os povos Dakota – como tantos outros povos originários das Américas – mantinham com a terra uma relação incompatível com a lógica colonial. A terra não era mercadoria, mas entidade viva. O espaço não era fronteira fixa, mas campo relacional. A espiritualidade não era instituição, mas experiência direta, inseparável da natureza. Essa forma de existência é também característica neptuniana – e foi exatamente isso que o projeto colonial europeu, seguido pelo Estado americano, não pôde tolerar.


A expansão exigia Saturno em sua forma mais dura: lei imposta, autoridade centralizada, punição exemplar, violência legitimada por narrativas religiosas e civilizatórias. A democracia nunca foi universal; sempre foi seletiva. O direito sempre foi distribuído. A humanidade sempre foi condicional. O que hoje se manifesta como violência institucional contra imigrantes não é uma falha do sistema, mas sua continuação lógica: o mesmo gesto de exclusão, agora dirigido a outros corpos.


1862–2026: a mesma ferida, outra oitava


O ponto mais sensível – e mais revelador – desta leitura está na dinâmica sincrônica entre Netuno e Saturno em 1862 e agora, em 2026.


Em 1862, durante a Guerra Dakota, Netuno em trânsito havia acabado de entrar em 0° de Áries e já se encontrava em retrogradação. Era um Netuno de revisão, confusão moral, dissolução de fronteiras éticas e perda de orientação coletiva. Netuno não avançava: ele voltava ao zero, ao ponto de origem da identidade e da ação. A guerra emergiu nesse campo nebuloso, onde o impulso ariano se combinava à dissociação neptuniana.


Ao mesmo tempo – e este é o dado decisivo – Saturno em trânsito encontrava-se em Virgem, em conjunção exata com o Netuno natal dos Estados Unidos, também em Virgem. A autoridade do Estado estava colada ao modo como o país já operava simbolicamente seu Netuno natal: um Netuno pragmaticamente moldado, moralizado, colocado a serviço da ordem, da eficiência e da chamada “missão civilizatória”. Foi nesse contexto que a violência contra os povos indígenas pôde ser racionalizada, administrada e legitimada como necessidade legal, econômica e moral. Saturno deu forma institucional à névoa; Netuno dissolveu a ética.


Em 2026, o tema retorna – mas não na mesma oitava. Netuno novamente entra em Áries vindo de Peixes, como em 1862. A diferença crucial não está em Netuno, mas em Saturno. Agora, Saturno também vem de Peixes e entra em Áries em conjunção com Netuno em trânsito, no grau zero do zodíaco. Não é mais o espírito submetido à lei. É a lei confrontada pelo espírito. Não é mais a violência mascarada de ordem. É a ordem desmascarada em sua violência.


A sincronicidade se aprofunda de forma incontornável quando observamos que Netuno volta a retrogradar em 2026 no mesmo grau em que retrogradou em 1862, com diferença de apenas alguns minutos de arco, após completar uma volta inteira no zodíaco, cerca de 165 anos depois. Em ambos os ciclos, essa retrogradação ocorre logo após o 4 de julho, data máxima do mito fundacional americano. A independência é celebrada – e imediatamente colocada em suspensão simbólica. As origens pedem revisão.


É nesse ponto que Quíron assume papel central. Na astrologia, Quíron representa a ferida que nunca foi curada e que retorna para exigir consciência. No mapa dos Estados Unidos, Quíron encontra-se em retorno, ativando exatamente essa zona ariana. Se Netuno dissolve e revela, Quíron dói. Ele marca a ferida da opressão como fundamento do poder, a ferida da violência legitimada, a ferida da identidade construída contra o outro.


O grau sabiano de 3° de Áries - ativado por Netuno retrógrado - sintetiza isso de forma perturbadora: “O perfil de um homem se destaca no contorno de seu país.” O ego confundido com a nação. A identidade pessoal fundida ao território. A crença de que o Estado é extensão do “eu” – e de que o outro representa ameaça. Em 1862, essa identificação inflamável produziu o massacre indígena. Em 2026, ela retorna para ser exposta – e não mais facilmente sustentada.


É nesse contexto que os acontecimentos recentes em Minnesota deixam de parecer episódicos. As mortes trágicas de Renée Good e Alex Pretti, em ações envolvendo agentes federais do ICE, e a tentativa imediata do poder estatal de fabricar narrativas falsas, desmentidas por imagens e vídeos amplamente divulgados tornam-se expressões concretas desse retorno simbólico. Netuno rege imagens, registros visuais, aquilo que escapa ao controle da narrativa oficial. Quando o poder afirma uma versão e a imagem revela outra, o véu se rasga. A farsa não se sustenta mais.


A diferença em relação ao passado não está na ausência de tensão. Está no fato de que as cortinas que encobriam o teatro dos horrores estão sendo rasgadas. Os trânsitos atuais não sustentam mais a mentira institucionalizada, a corrupção moral travestida de legalidade, a violência justificada por eficiência e segurança. O que antes podia ser administrado pelo discurso agora se torna visível, incontornável, exposto.


O que entra em colapso não é apenas uma política, um governo ou uma narrativa nacional. É uma forma de consciência. É o predomínio de um mental racional virginiano dissociado do coração – a lógica técnica sem compaixão – separado da dimensão pisciana do amor incondicional, da percepção de que não existe ordem legítima sem humanidade. Quando o cálculo substitui o cuidado, quando a lei substitui o vínculo, quando a eficiência substitui a vida, o resultado não é civilização – é barbárie organizada.


Por isso, a ferida que retorna agora não é apenas a ferida da guerra. É a ferida da desumanização. A ferida de uma humanidade que insiste em dominar em vez de reconhecer, excluir em vez de integrar, controlar em vez de amar. Essa ferida atravessa o genocídio indígena, o colonialismo, a escravidão, a violência contra imigrantes e todas as formas pelas quais o poder tenta justificar a negação do outro.


O que estes ciclos tornam inegociável é simples: não é mais possível continuar assim. Não é possível sustentar níveis de consciência abissais sob a aparência de ordem. Não é possível falar em soberania, democracia ou segurança enquanto a vida humana permanece condicional.


A história não retorna por acaso.

Ela retorna porque nunca foi resolvida.

E agora exige ser resolvida – não pela força, mas por aquilo que sempre foi negado: o amor incondicional, a dignidade intrínseca de todo ser, e a coragem de reconhecer o que foi feito.


Flavio Graff

 
 
 

Comments


bottom of page